Série Livros para Escritores: Oficina de Escritores de Stephen Kock






No segundo post da série sobre livros para escritores, o blog Almeida em Prosa fará a resenha do livro Oficina de Escritores (Ed. Martins Fontes) de Stephen Kock.

Kock ensinou por 21 anos a arte de ficção na pós-graduação da School of Arts da Columbia University e por 7 anos na graduação da Princeton University no programa de escrita criativa.


Oficina de Escritores ensina, através de exemplos e citações de autores clássicos consagrados, como iniciar na arte da ficção. O livro é dividido em oito capítulos: 1. Começo; 2. Vida de escritor; 3. Como dar forma à história; 4. Como dar vida aos personagens; 5. Como inventar seu estilo; 6. A história do eu; 7. Trabalhar e retrabalhar; 8. Para concluir.

Logo no primeiro capítulo Kock incentiva o leitor a começar a escrever imediatamente; antes de concluir o livro; se possível, antes de terminar o primeiro parágrafo da obra. A escrita torna possível inspiração, confiança, técnica e pesquisa. O escritor só aprende na prática do ofício.

Oficina de Escritores apresenta quatro treinos para qualquer escritor: imaginação, observação, leitura e escrita. Praticando essas quatro disciplinas, o escritor conseguirá iniciar e desenvolver o texto de ficção.

A vida de escritor é árdua. É preciso ter disciplina e estabelecer uma rotina de trabalho. O escritor deve escolher o que vai sacrificar. Para quem tem outro ofício – no Brasil a grande maioria -, o escritor não deve tornar uma atividade inimiga da outra, mas tentar conciliá-las.

Para dar forma a uma história, só há um modo: contá-la. Até que o escritor conte toda a história, ela não passará de fumaça. É preciso encontrar a história, que começa com o primeiro caderno de anotações e termina apenas com a versão final. A busca começa lenta, mas depois acelera.

Oficina de escritores ensina que história e enredo costumam ser apresentados como sinônimos, mas não são. História é o relato de sequência de acontecimentos relacionados que podem ser contados em uma frase ou de forma um pouco mais longa. Enredo é mais detalhado do que a história e apresenta todas as reviravoltas da trama. A história é vaga, ao passo que o enredo é preciso e concreto. A história antecede o enredo, de maneira que não é possível montar o enredo sem conhecer a história.

Kock critica a “ficção por fórmula”. Aquela que muda um pouco a história e usa desgastados mecanismos de enredo para contar pela milésima vez a mesma coisa. Para ele, isso não é escrever, mas digitar.

A estrutura se junta à história e ao enredo para dar forma à narrativa. A estrutura consiste nas grandes unidades que organizam os movimentos da história e lhe conferem uma forma geral. A estrutura básica é composta de três atos: começo, meio e fim.

A porta de entrada para qualquer história é o conflito, pois sempre faz o leitor se perguntar o que vai acontecer depois. O leitor que não se interessar pelo conflito não se interessará pela leitura. O conflito é que determina o gênero da obra: se vai fazer rir, chorar, medo, raiva, compaixão.

Quando a história estiver desorganizada, o escritor deve se concentrar no personagem, pois o que arruma a história é o conflito e este é vivenciado pelo personagem. Um grande erro do escritor é organizar a história através do enredo.

O protagonista é o personagem cujo destino é o mais importante para a história. Não precisa ser o que aparece mais nem o personagem do ponto de vista. O que proporciona unidade à história é a singularidade do protagonista e de seu conflito. Tudo deve se formar ao redor desse centro. Quando uma cena ou um personagem não tiver uma ligação com o protagonista, haverá um desvio de rota e deve ser cortado. A voz do personagem é o som de sua identidade. Cada personagem deve ter sua voz. O escritor deve ler os diálogos em voz alta para encontrar a dos personagens.

O estilo é o veículo através do qual o autor conta a sua história; consiste na sua linguagem e jeito de usá-la. O escritor cria seu estilo quando encontra a sua voz. Todo autor trabalha sob a influência de outro, de modo que não se deve perguntar se outros escritores vão lhe influenciar, mas como. Gostar da voz de outros autores ajuda o escritor iniciante a encontrar a sua.

Os melhores capítulos de Oficina de Escritores são: trabalhar e retrabalhar; para concluir. Neles Kock ensina técnicas para revisão do texto.

O autor deve escrever tantas versões quantas forem necessárias. Normalmente são três. Na primeira, o autor deve escrever de forma mais rápida sem necessariamente se preocupar com a estética. A primeira versão deve ser destinar apenas ao autor, sendo que um feedback nessa fase pode ser prejudicial. Na segunda versão, o autor deve corrigir falhas estruturais e de personagens. Um erro comum é o escritor começar a borilar o texto na segunda versão, pois será polir a desordem. A terceira versão é para polimento, devendo  autor trabalhar a parte estética da obra.

O escritor iniciante que pretende “fórmulas prontas” pode se decepcionar ao ler Oficina de Escritores, mas a obra pode ser de grande valia para conhecer como autores clássicos desenvolveram a arte da ficção e para aprender técnicas de revisão.  


José Almeida Júnior

Para ler resenha de Manual do Roteiro de Syd Field, click aqui.

4 comentários

  1. Excelente, me motivou a ler o original. Tenho adorado seus posts, continue assim!

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  2. Olá!
    Outro livro que parece ótimo e ajuda bastante com a escrita - bem, já aprendi algumas coisas só com essa resenha. Como eu nunca pensei em trabalhar a história no personagem e não no enredo? Me sinto uma anta. Uma coisa que não me agradou muito - e que eu não entendi bem - foi essa coisa de escrever várias versões. Poxa, para uma autora iniciante (bem iniciante) já é difícil escrever uma só! Então eu vou na base do roteiro. Acho que faço algo parecido sem parecer, porque assim, eu escrevo sobre os personagens e o roteiro em um arquivo; noutro eu coloco frases que eu encontrei em algum espaço vazio de minha mente; depois eu pesquiso e tenho novas ideias - com músicas, filmes e séries - e então estou com a história quase pronta; só é preciso organizá-la.
    Estas séries de livros para escritores estão me ajudando bastante. Agradeço.
    Ótimo post!
    Beijinhos.
    Karol
    http://heykarol.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Obrigado Karol.
      Quando o Kock fala em versões, na verdade, ele está falando do resultado da revisão, de maneira que cada versão é uma revisão e não começar do zero cada versão.
      Abs

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