Resenha: Abril Despedaçado de Ismail Kadaré




Abril Despedaçado (Ed. Cia das Letras) de Ismail Kadaré foi uma das melhores leituras de autores contemporâneos que já li. É daqueles livros que o leitor passa dias ruminando a estória depois de concluí-la. A narrativa é profunda, mas ao menos tempo enxuta, pois o autor consegue fazer a trama em menos de duzentas páginas. A obra do escritor albanês foi filmada pelo diretor Walter Salles que a transpôs para o cenário do nordeste brasileiro.


A trama começa quando Gjorg dá um tiro de fuzil e toma o sangue de Zef Kryeqyq. Essa foi mais uma morte de uma vendeta iniciada setenta anos antes, quando um desconhecido foi vítima de um Kryeqyq depois de ser acolhido pelo clã dos Berisha. Toda essa guerra entre as famílias é imposição do código moral Kanun, que há séculos rege a vida dos montanheses da Albânia.

O jovem Gjorg cumpre seu dever de cobrar dos Kryeqyq o sangue que eles devem aos Berisha, e os Kryeqyq têm agora o direito de recuperar o sangue que lhes foi tomado, matando Gjorg dentro de 28 dias.

Paralelamente, o romance narra a viagem de Bessian e Diana que foram passar a lua de mel nas montanhas albanesas. Bessian é um escritor aficionado pelo Kanun. Depois o casal acaba cruzando o caminho de Gjorg.

A outra trama do romance é a estória de Mark Ukaçjerra, responsável por receber o tributo de sangue depois de cada vendeta. O imposto é imposição do Kanun.

“Abril Despedaçado” mostra todas as minúcias da aplicação do código Kanun: quem, como, onde e quando matar; a posição do cadáver; o anúncio da morte; o velório e o banquete fúnebre; o sepultamento da vítima; os prazos da vingança e as tréguas entre os clãs; as humilhações que devem ser impostas à família enquanto ela não "recuperar o sangue" que lhe foi tomado.

Após, terminar de ler o livro, verifiquei que o Kanun ainda se encontra em vigor na Albânia, embora não com a mesma aplicação de séculos passados. Mesmo antes de assistir ao filme de Walter Salles no filme, "Abril Despedaçado" lembrou-me as vendetas entre famílias que havia no interior do nordeste que eu acompanhava através dos jornais.

Excelente romance. Recomendo a leitura. 

Um comentário

  1. Obrigada, José. Gostei da dica! Continue a fazer este trabalho, é ótimo. Vou procurar o livro!
    http://memorialdasflores.blogspot.it/2015/10/primeiro-capitulo.html

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